terça-feira, 1 de julho de 2008

Crônica sobre um desconhecido

Nota: A crônica abaixo foi escrita a partir de minha vivência no Teatro José de Alencar.

Era uma noite comum até então como todas as outras, quando vi um senhor já bem idoso sentado na calçada. Seu rosto trazia as marcas do tempo, mas havia algo que me chamava atenção. Apesar de suas roupas maltrapilhas, sua postura era de uma tal nobreza que fiquei estática perante aquela figura. Parei e perguntei o seu nome. O que me intrigava é que ele não pedia esmolas como os tantos outros que estão espalhados pela cidade. Ele me olhou com gentileza e sorriu. Falou que seu nome não importava, que as coisas que ele trazia consigo em sua alma, era isso que importava. Mas mesmo assim disse-me que era José, e que podia chamá-lo de José das Artes.

Depois disso, fiquei mais intrigada ainda e querendo conhecer que mistérios eram esses que aquele homem carregava e por que exercia tamanho fascínio com sua elegância sobre mim. Resolvi sentar e ouvi-lo, adentrar-me pelo universo desse desconhecido. Fiquei quietinha e José começou a falar de coisas que nunca tinha ouvido antes. Falou de uma tal “Sexa” que parece ser o feminino de sexo, mas explicou que tratava-se do que acontece hoje com as mulheres, como elas tratam e maltratam seus corpos em busca de padrões que a sociedade impôs. Perguntou-me se conhecia O Despeitado. Respondi que não e com ânsia de que me apresentasse-o. Eu estava encantada com mundo de José. Disse-me:

- Esse despeitado é uma das figuras mais comuns hoje, com certeza você conhece. É um caos político só. O dinheiro público vai para todos os lugares, até para um implante de silicone da primeira dama dessa tal cidadezinha, menos para onde deveria de fato ir. Saúde, Segurança, Educação? Nem pensar! Mas um dia, o povo aprendeu que não tem só deveres, mas também direitos e que podiam exigí-los. Foi aí que a coisa começou a mudar e o dinheiro aplicado de acordo com as necessidades do povo.
Percebi que ele me mostrava coisas reais e do nosso cotidiano mas com um olhar diferenciado. Então comecei a entender o por quê da entitulação de “José das Artes”. José era especial, ele tratava de coisas trágicas com um “quê” de fantasia. E foi falando mais e mais. Cantou trechos do que chamava de Canções do Mar. E velejei em cada onda, sem perder nenhuma. E era uma sincronia de duas estações, a minha e a dele. Nossa sintonia fazia com que nossas mentes andassem de mãos dadas, e cada história era uma experiência paralela à realidade.

Fiquei apavorada quando ele começou a contar a história da Menina dos Cabelos de Capim, tadinha daquela menininha que sofria com tanta maldade daquela madrasta má, ou seria má madrasta? Não importa! A vontade que tive foi de salvar a menina daquela criatura que mais parecia não saber o que é o amor e seu mundo parecia não ter cor. Mas ainda bem que a menina foi salva. Ufa! Mas uma coisa me preocupa, José disse que a madrasta má irá cruzar o meu caminho e que eu estivesse aberta para absorver o que ela tem para transmitir, que até as pessoas más são boas. Engraçado isso, não mesmo?! Mas enfim, espero que ela seja pelo menos um pouco boazinha.

Perguntei à José de onde ele tirava tantas histórias. Ele repondeu que gosta muito de ler e que o que fazia viajar eram os livros que havia numa Biblioteca humilde chamada Carlos Câmara que possuía poucos exemplares, mas que o conhecimento não é vaidoso e pouco importa quão grande possa ser uma biblioteca, se o que faz a diferença é a maneira que você a percebe e usufriu. Ele disse que já havia lido e relido todos os livros que lá estavam. Aí fiquei imaginando como nós taxamos as pessoas, quem diria que quem para mim era apenas mais um, iria me apresentar um mundo tão maravilhoso?
José ainda falou-me de um tal de Joca que era uma criatura de mil faces e facetas, que seria difícil distinguir o ator e a pessoa. Que ele fala, encanta, mostra-nos a realidade da vida de um artista e depois pede-nos para esquecer tudo que falou. Constrói, descontrói e reconstrói. É uma verdadeira profusão de emoções.

Achei super interessante porque José estava me mostrado um mundo que eu não percebia existir, talvez até soubesse mas não dava tanta atenção. E agora, do outro lado, pude ter a mesma visão que José das artes tinha com relação aquelas pessoas que passam e não lhe notavam. E assim foi até o dia amanhecer. Estórias e histórias. Palhaço Trepinha, Uma Flor de dama, 3Bonde+, No ato com Ricardo Guilherme, personagens e assuntos que a partir dali tive vontande de apresentar para todos. José passou a ser o meu mais novo grande amigo do peito. Aquele que quero sempre poder contar quando estiver triste e ele me fazer sorrir, quando alegre dividirmos as emoções. Mas sabia que aquele momento estava próximo de findar-se e que teria que deixar José e ir para minha casa, pois a hora passou e não me dei conta. E José falou-me:

- Sempre que quiseres, estarei aqui com o mesmo sorriso e tantas outras estórias para te contar.

Um dia qualquer de junho de 2008,

Cleigiane Borges


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